Logo após minha
saída do hospital, entrei no carro da minha esposa, tinha um cheiro
que me lembrava alguma viagem, provavelmente
era um resquício da minha memória perdida que vinha a tona, sentia
que aquele cheiro era muito familiar e acabei perguntando a ela o que
era aquela fragrância que eu sentia, sem muitas delongas ela me
respondeu que eu havia colocado no carro dela, que eu sempre lavava
os carros que possuíamos, afinal eu tinha ajudado a desenvolver
metade deles, fiquei bastante curioso sobre a parte de eu ter ajudado
a desenvolver.
Chegando em casa reparei que era uma residência
simples, com as janelas parecidas com as daquele quarto em que eu
acordara, a semelhança era tanta que eu fiquei impressionado,
parecia ser a mesma janela só que colocada em outro local, a casa
era espaçosa, não me lembrava de nada daquele lugar, entrei em
todos os cômodos e finalmente achei a minha oficina, estava mais
para um laboratório, cheio de peças e tranqueiras que eu
desconhecia, tudo aquilo me parecia fascinante, eu me sentia uma
criança entrando em uma loja de brinquedos pela primeira vez, havia
circuitos familiares amontoados em uma mesa que parecia ser a parte
da oficina reservada para desenvolvimento de equipamentos e
bugigangas eletrônicas, havia circuitos que me lembrava
perfeitamente tirando o fato de não lembrar de ter feito algum. Uma
das placas com circuito me chamava a atenção, quando eu estava para
formar na faculdade de engenharia
eletrônica aplicada a circuitos eu havia pensado em uma forma de
produzir energia através do campo magnético de objetos variados,
aquela ideia era totalmente sem noção na época, mais naquele
momento que vi a placa eu sabia que tinha chegado perto da ideia,
muitas das coisas que eu via naquela oficina/laboratório estimulava
minha mente, era como se eu soubesse de tudo aquilo, só não sabia
como tinha feito tudo.
Após
tomar um banho e comer um lanche com um gosto totalmente superior à
aquele encontrado no hospital, me sentei no sofá e continuei minha
busca por informação, chequei um e-mail antigo que eu tinha desde a
época de faculdade, lá poderia ter alguma informação sobre a
possível senha utilizada no arquivo pessoal que havia encontrado
anteriormente no laptop, achei vários e-mails sobre algumas das
parafernálias desenvolvidas na minha oficina, vários esquemas
eletrônicos que sem dúvidas nunca coloquei em prática, aquilo com
certeza era meu, pois conseguia decifrar facilmente os códigos
apresentados em alguns diagramas, sem dúvida era trabalho meu, eu
não tinha memória de nada daquilo, mais sabia exatamente o que era,
nunca me senti tão frustrado e ao mesmo tempo tão motivado a
lembrar como naquela hora, havia muitos trabalhos naquele e-mail,
provavelmente ninguém nunca tinha visto aqueles arquivos, então
resolvi juntar todos os meus trabalho antigos em uma pasta e tentar
visualizar algo novo, tentar juntar todas as peças e ver se me
lembrava de algo maior, eu tinha a sensação que tudo aquilo iria me
levar a algo grandioso, eu sentia que todos os meus trabalhos estavam
ligados um aos outros de alguma forma, como se eu tivesse
desenvolvendo algum tipo de nave, tinha todas as peças ali, todos os
esquemas que juntos poderiam ser integrados e se transformarem em
peças usadas nos carros que havia visto em um nível totalmente
diferente daqueles, o gerador baseado em gravidade poderia tornar uma
nave espacial libre de combustível fóssil ou nuclear por décadas,
bastaria passar perto da gravidade de um planeta que a nave começaria
a recarregar sozinha, era fantástico aquela ideia, mais de acordo
com os esquemas desenvolvido por mim, faltava algo naquele projeto de
gerador, que eu me lembre não existia o material de uma das peças
que parecia ser fundamental para o funcionamento do aparelho, era um
capturador de gravidade e ondas eletro magnéticas, havia alguns
espalhados pelo planeta porem o descrito no meu projeto eu nunca
havia visto anteriormente, o material que compunha a peça me parecia
inexistente.
Minha
esposa chegou do trabalho e resolveu me mostrar vídeos e fotos do
nosso casamento, havia centenas de terabytes de informação, era
muito material, sem delongas eu comecei a destrinchar os arquivos,
havia fotos que eu nunca imaginaria, eu com uma armadura explorando
alguns cânions de marte, tinha fotos de nós dois na lua ajudando a
dar manutenção nos respiradouros eletrônicos do satélite, parecia
que eu tinha um relacionamento muito forte com aquela mulher, eu
sentia que adorava ela, só não me lembrava dos momentos, as
memórias haviam sido apagadas, mais o sentimento ainda existia,
quando esbarrei novamente em um arquivo com a mesma descrição do
arquivo encontrado no laptop no hospital, eu devia estar criando algo
grandioso para manter tanto sigilo sobre aqueles arquivos, perguntei
para a Léa se ela sabia algo sobre o ultimo projeto em que eu
trabalhava, ela me disse com um tom meio choroso, “você disse que
quando estivesse pronto o mundo seria pequeno perto da sua criação”,
aquilo me instigou ainda mais a recuperar minhas memórias, mesmo se
fosse através de arquivos e evidências.