terça-feira, 22 de outubro de 2013

"Memórias" parte-3

Logo após minha saída do hospital, entrei no carro da minha esposa, tinha um cheiro que me lembrava alguma viagem, provavelmente era um resquício da minha memória perdida que vinha a tona, sentia que aquele cheiro era muito familiar e acabei perguntando a ela o que era aquela fragrância que eu sentia, sem muitas delongas ela me respondeu que eu havia colocado no carro dela, que eu sempre lavava os carros que possuíamos, afinal eu tinha ajudado a desenvolver metade deles, fiquei bastante curioso sobre a parte de eu ter ajudado a desenvolver. 

Chegando em casa reparei que era uma residência simples, com as janelas parecidas com as daquele quarto em que eu acordara, a semelhança era tanta que eu fiquei impressionado, parecia ser a mesma janela só que colocada em outro local, a casa era espaçosa, não me lembrava de nada daquele lugar, entrei em todos os cômodos e finalmente achei a minha oficina, estava mais para um laboratório, cheio de peças e tranqueiras que eu desconhecia, tudo aquilo me parecia fascinante, eu me sentia uma criança entrando em uma loja de brinquedos pela primeira vez, havia circuitos familiares amontoados em uma mesa que parecia ser a parte da oficina reservada para desenvolvimento de equipamentos e bugigangas eletrônicas, havia circuitos que me lembrava perfeitamente tirando o fato de não lembrar de ter feito algum. Uma das placas com circuito me chamava a atenção, quando eu estava para formar na faculdade de engenharia eletrônica aplicada a circuitos eu havia pensado em uma forma de produzir energia através do campo magnético de objetos variados, aquela ideia era totalmente sem noção na época, mais naquele momento que vi a placa eu sabia que tinha chegado perto da ideia, muitas das coisas que eu via naquela oficina/laboratório estimulava minha mente, era como se eu soubesse de tudo aquilo, só não sabia como tinha feito tudo.

Após tomar um banho e comer um lanche com um gosto totalmente superior à aquele encontrado no hospital, me sentei no sofá e continuei minha busca por informação, chequei um e-mail antigo que eu tinha desde a época de faculdade, lá poderia ter alguma informação sobre a possível senha utilizada no arquivo pessoal que havia encontrado anteriormente no laptop, achei vários e-mails sobre algumas das parafernálias desenvolvidas na minha oficina, vários esquemas eletrônicos que sem dúvidas nunca coloquei em prática, aquilo com certeza era meu, pois conseguia decifrar facilmente os códigos apresentados em alguns diagramas, sem dúvida era trabalho meu, eu não tinha memória de nada daquilo, mais sabia exatamente o que era, nunca me senti tão frustrado e ao mesmo tempo tão motivado a lembrar como naquela hora, havia muitos trabalhos naquele e-mail, provavelmente ninguém nunca tinha visto aqueles arquivos, então resolvi juntar todos os meus trabalho antigos em uma pasta e tentar visualizar algo novo, tentar juntar todas as peças e ver se me lembrava de algo maior, eu tinha a sensação que tudo aquilo iria me levar a algo grandioso, eu sentia que todos os meus trabalhos estavam ligados um aos outros de alguma forma, como se eu tivesse desenvolvendo algum tipo de nave, tinha todas as peças ali, todos os esquemas que juntos poderiam ser integrados e se transformarem em peças usadas nos carros que havia visto em um nível totalmente diferente daqueles, o gerador baseado em gravidade poderia tornar uma nave espacial libre de combustível fóssil ou nuclear por décadas, bastaria passar perto da gravidade de um planeta que a nave começaria a recarregar sozinha, era fantástico aquela ideia, mais de acordo com os esquemas desenvolvido por mim, faltava algo naquele projeto de gerador, que eu me lembre não existia o material de uma das peças que parecia ser fundamental para o funcionamento do aparelho, era um capturador de gravidade e ondas eletro magnéticas, havia alguns espalhados pelo planeta porem o descrito no meu projeto eu nunca havia visto anteriormente, o material que compunha a peça me parecia inexistente.

Minha esposa chegou do trabalho e resolveu me mostrar vídeos e fotos do nosso casamento, havia centenas de terabytes de informação, era muito material, sem delongas eu comecei a destrinchar os arquivos, havia fotos que eu nunca imaginaria, eu com uma armadura explorando alguns cânions de marte, tinha fotos de nós dois na lua ajudando a dar manutenção nos respiradouros eletrônicos do satélite, parecia que eu tinha um relacionamento muito forte com aquela mulher, eu sentia que adorava ela, só não me lembrava dos momentos, as memórias haviam sido apagadas, mais o sentimento ainda existia, quando esbarrei novamente em um arquivo com a mesma descrição do arquivo encontrado no laptop no hospital, eu devia estar criando algo grandioso para manter tanto sigilo sobre aqueles arquivos, perguntei para a Léa se ela sabia algo sobre o ultimo projeto em que eu trabalhava, ela me disse com um tom meio choroso, “você disse que quando estivesse pronto o mundo seria pequeno perto da sua criação”, aquilo me instigou ainda mais a recuperar minhas memórias, mesmo se fosse através de arquivos e evidências.